o uno e o múltiplo

Quarta-feira, Março 05, 2008

Em princípio, sem Princípios

Ouvimos dizer cada vez com mais frequência que isto está uma treta, que 'faltam valores', que 'não há princípios' e outras frases do mesmo género e no mesmo sentido. Será esse o caso?

A resposta é negativa: nem esse é o caso, nem persistir em tal é uma boa ideia. De facto, a submissão de uma acção a um escrutínio prévio, desloca o julgamento ético para a intenção: o que conta é a intenção (e de boas intenções está o inferno cheio, como muito bem diz o aforismo), provocando a queda no relativismo moral - se a minha intenção é Boa, os seus efeitos são imediatamente justificados (uma vez que a intenção manifestada pelo governo dos USA para atacar o Iraque era Boa, a sua acção está isenta de castigo: não é este o argumento dos que defenderam a invasão?).

Por outro lado, agir segundo princípios exige a sua universalidade: o princípio tem de ser válido para todos os indivíduos em todas as circunstâncias de todos os mundos possíveis. Tal coisa não existe: para que 'não roubar' seja um princípio acatável, é necessário aceitar primeiro a propriedade como a forma da relação em todas as culturas de todos os tempos presentes passados e futuros. Seria, portanto, necessário que a propriedade fosse a forma natural da relação: que tudo e todos nascessem proprietários e, portanto, propriedade - e não se diz por aí que o capitalismo é a forma natural da relação? Aquela que Deus instituiu desde toda a eternidade?

No plano político há ainda um outro perigo: a exigência de um homem providencial, de um demiurgo que, com pulso firme e sem rodriguinhos, ponha 'isto na ordem'.

Já temos experiência suficiente deste género de exigências e já sabemos onde conduzem!

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Sábado, Fevereiro 16, 2008

Técnica, Ética e Liberdade

Picasso, diz-se, sentenciou: sem técnica não há génio.

De facto, a técnica, ao contrário do estilo, que é a morte do artista, permite superar as dificuldades e aumenta a potência, ou capacidade, de expressão de qualquer indivíduo em qualquer acto por ele praticado: aumenta a sua liberdade e coloca-o à altura das circunstâncias.

Mas a técnica não dispensa o génio: a paixão criadora e o conhecimento que cada um tem de si, das coisas e do mundo.

Encontrar um estilo e quedar-se nele, pelo contrário, é a negação da liberdade, a destruição da potência criadora: um grito de 'Viva la Muerte'.

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Domingo, Fevereiro 10, 2008

Acordo Ortográfico

Quando se volta a falar do acordo ortográfico, pôe-se a questão de saber qual a sua utilidade. De facto, ele parece inútil, uma vez que as principais diferenças entre o português de Portugal e do Brasil são gramaticais e lexicais.

Ora, essas diferenças persistirão a despeito de qualquer acordo incidindo sobre a ortografia, para além de que as duas línguas continuarão a evoluir em separado, independentemente uma da outra.

Para quê então legislar sobre a ortografia?

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Sábado, Fevereiro 02, 2008

?

Li, numa daquelas notícias de rodapé dos noticiários, na SICnotícias, que os USA estão a comprar prisioneiros para interrogatório por cinco mil dólares.

Fiquei sem palavras... e ainda não as encontrei!

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Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Ainda 'Assim'

A acentuação do dualismo essencial do novo regime pode ser visto em muitos lugares, e um deles é a nova lei de gestão das escolas. Há elementos de democratização (como os conselhos de escola, onde têm assento professores, pais, funcionários, autarquias... enfim, todos os interessados no bom funcionamento das escolas) e outros que vão em sentido contrário, subsidiários do dogma segundo o qual uma boa gestão é uma gestão segundo o modelo das empresas privadas (o director, responsável por toda a vida da escola, nomeando inclusivamente os directores de grupo).

Nenhum dos problemas reais do ensino é atacado, seja a exclusão, a falta de equipamentos ou qualquer outra questão maior, sendo que tenderão todos para um agravamento, quer pelo aumento da distância entre os professores e a escola, quer pelos mecanismos do financiamento, quer ainda pela operacionalidade duvidosa dos conselhos de escola (é preciso atender à disponibilidade, e não apenas física, dos encarregados de educação, etc)

Enfim...

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Domingo, Janeiro 27, 2008

O 'Assim'

Creio que o 'assim', esta nova coisa que se instala nas nossas vidas em substituição daquilo a que chamávamos 'democracia parlamentar' e 'estado de direito democrático', pode começar a ser desenhado, a ser percebido na penumbra que ainda o envolve. De facto, parece marcado por duas tendências contraditórias: integra elementos de tendência democratizante ao mesmo tempo que acentua o pendor para a exclusão do maior número dos círculos de decisão política.

Aprofunda, portanto o carácter dualista e autoritário próprio de uma cultura dos valores, permanentemente produzindo ordens contraditórias.

Creio, contudo, que a internacionalização (ou globalização, como quiserem) tornará gritante o seu carácter finito e a sua essência triste e decadente, toda a negatividade que consigo carrega.

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Domingo, Janeiro 20, 2008

Confirmação do Óbito

Dois exemplos:

Gordon Brown reúne em Londres um directório europeu para as finanças. Participantes: Inglaterra, França, Alemanha e Itália. E Durão Barroso, apesar de Presidente da 'Comissão', teve de suar para ter lugar na fotografia.

A nova lei das autarquias cozinhada por PS e PSD.

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Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

NECESSIDADE DE CONGELAR SALÁRIOS?

Segundo a Comissão Europeia, entre 1983 e 2006, a parte dos salários no PIB dimimuiu 8,6% na União. Esse dinheiro foi, naturalmente, parar aos bolsos dos accionistas.

Milhares de milhões de Euros. Muito mais que os badalados buracos da Segurança Social.

E há quantos anos não há um aumento real dos salários líquidos?

E se os salários dos administradores não contassem nestas estatísticas?

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Sábado, Janeiro 12, 2008

OBITUÁRIO

Disse, amiúde, que o regime andava moribundo. Digo agora que morreu!

O problema central do tratado ex-constitucional é precisamente o facto de nele se configurar uma mudança na natureza de democracia tal como a conhecíamos e herdáramos das revoluções burguesas.

A globalização, ou internacionalização, como preferirem, provocou, pelo simples aumento da cpmplexidade dos arranjos de bastidores antes de qualquer tomada de decisão, um afastamento das burocracias políticas relativamente aos cidadãos.

Ora, quando urgiam medidas de aprofundamento dos mecanismos de controlo democrático, aconteceu exactamente o contrário: de facto, ao novo estádio do capitalismo irá corresponder uma nova figur política.

Enquanto no cerne do velho conceito de democracia respiravam palavras como liberdade, igualdade, fraternidade, pulsam agora prepotência, mistificação. direito do mais forte.

E tal como se dissolve o princípio da igualdade entre os estados, consagra-se a redução dos indivíduos à condição de pura mercadoria, mesmo se isso vem disfarçado com termos absurdos como 'economia social de mercado'. (Poderíamos igualmente invocar a destruição dos sistemas públicos de ensino, saúde e protecção social.)

Trata-se, portanto, de ultrapassar uma forma de organização política incapaz de responder às necessidades do capitalismo actual, já não nacional nem centrado na empresa mas internacional e com o centro nos mercados de capitais.

Também dos USA chegam rumores de tentativas de eliminar o princípio da igualdade entre os estados, destruindo o equilíbrio de poder entre os estados maiores e os mais pequenos.

Mesmo que o nome da coisa se mantenha por muitos anos, a democracia tal como a conhecíamos morreu e tem já a data marcada para o funeral.

Paz à sua alma.

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Sábado, Janeiro 05, 2008

Hip-Hop, Rap E Canção Francesa

Que podem o Hip-Hop ou o Rap ter a ver com a Canção Francesa? Um imaginário similar para gerações de tempos diferentes.

A orientação que, em matéria de gosto, política, etc, cada geração adopta segue sistemáticamente os ciclos de dominação: como ontem se ouviam Brassens ou Ferré imitam-se hoje os gestos e os gostos do gueto americano (mas, atenção, do gueto idealizado pela indústria da música ou do cinema).

Também a literatura ou a filosofia seguiram o mesmo deslocamento, havendo hoje mais gente a escrever 'à americana' - tanto no lixo como no luxo - ou a adoptar o 'modo analítico de filosofar'.

E mesmo numa trivial conversa de café, qualquer manifestação de erudição ou de inteligência exige o pontilhar das frases com termos do vocabulário inglês/americano, mesmo quando importamos palavras por eles colhidas no vocabulário latino, como é o caso do termo media, que muitos insistem em pronunciar à inglesa.

É o colonialismo imperialista, dirão alguns, enquanto outros se limitarão a encolher os ombros e a dizer que, enfim, é a vida e há que aproveitar.

Ora, eu diria que se trata de colonialismo imperialista, sim, mas também de 'servidão voluntária': está ao alcance dos indivíduos ignorar o dever de seguir a tendência dominante.

Naturalmente, contudo, essa possibilidade não pode ser definida como um mero acto de vontade: o 'quem quer pode' é mais um 'quer quem pode'.

A via mais segura para a liberdade, para escapar aos constrangimentos não necessários, é naturalmente a do saber, da filosofia e da ciência, a única que permite destruir o elemento central da 'servidão voluntária', a transcendência.

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Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Missão: Destruir!!!

A pretexto da necessidade de controlar o défice orçamental e de garantir a sustentabilidade do sistema de saúde, tem o governo vindo sistematicamente a fechar serviços e a reduzir o pessoal, apresentando tais medidas como inevitáveis e única garantia da qualidade do SNS.

Tal, contudo, não é verdadeiro.

É possível poupar muito mais sem fechar qualquer serviço nem cortar nos meios ou em técnicos. Um exemplo:

Um medicamento que na farmácia tem o PVP de 12€ custa ao estado, quando comprado directamente, cerca de 2€. Ora, é fácil ver que, acabando com as comparticipações e distribuindo GRATUITAMENTE os medicamentos nos centros de saúde e nos hospitais,se podem poupar muitos milhões, garantindo ao mesmo tempo um acréscimo não descurável na liquidez das famílias, sobretudo dos reformados e dos mais pobres.

E se fosse distribuída apenas a dose prescrita pelo médico seria eliminado o desperdício de medicamentos, estimado em mais de dez por cento, permitindo uma poupança ainda maior.

É, portanto, possível reforçar o SNS e poupar muitos milhões de euros ao mesmo tempo.

Os nossos ministros sabem-no perfeitamente!!

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Sábado, Dezembro 22, 2007

O "Príncipe dos Cágados"

Aparentemente, o facto de o governo se recusar a anunciar se haverá ou não referendo ao tratado ex-constitucional deve-se há necessidade de cimentar, através dos mais variados agentes de propaganda e, sobretudo, através dos comentadores e jornalistas, quer sejam afectos ao PS ao PSD ou ao PP, a ideia de que não haverá qualquer referendo, conseguindo assim a almofada que tornará pacífica a decisão de o não realizar.

Contudo, com a aceitação resignada aportará uma resitência passiva cimentada na convicção generalizada de que o referendo não se faz com medo de que pelo menos um dos 27 povos o rejeite.

Ora, este medo da vontade dos povos conduzirá os governantes, inevitavelmente, a proceder de modo similar em situações similares, reduzindo ainda mais a participação dos cidadãos na produção do seu próprio futuro político à escolha do príncipe absoluto que os governará em cada quadriénio.

O fosso cada vez maior entre os cidadãos e aqueles que os representam - e que as novas leis eleitorais aumentarão - torna a democracia cada vez mais uma formalidade, um ritual que se esgota com a introdução de uns papelinhos num caixote (urna, caixão, com apropriadamente lhe chamam).

O regime está moribundo
independentemente de quanto tempo levará a moribundar.

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Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Referendo Ao Tratado Ex-Constitucional e Agora Reformador

De todos os argumentos que nos últimos dias ouvi a dirigentes do PS para justificarem o facto de não quererem referendar o tratado ex-constitucional, o mais honesto de todos dizia que: o governo, depois de todos os esforços feitos, na sua qualidade de presidente da união, para alcançar um acordo, se agora optasse pelo referendo estaria a trair os seus parceiros europeus.


Daqui resulta a existência de um compromisso entre os governos europeus para não fazerem o referendo, mas também que o dever de lealdade, para os dirigentes do PS, se exerce não para com os portugueses, mas para com os outros governantes e, portanto, para com os interesses da casta burocrática cada vez mais auto-separada das populações que governa.


A recusa do referendo acentua a lógica de separação e, consequentemente, reforça o exercício do poder em cascata, de cima para baixo, portanto, roubando cada vez mais legitimidade aos governantes, mesmo se agindo a coberto da lei.

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Terça-feira, Julho 25, 2006

Literatura e Liberdade

É comum pensar-se que o domínio da literatura (como, de um modo geral, o de todas as artes) é o domínio da liberdade pura: um escritor, uma folha em branco, uma caneta; Deus criando o mundo.
Contudo, o texto (a obra) não está pelos ajustes: e como corpo inteligente (as palavras são mais inteligentes que nós, dizia Sergei Eisenstein, o cineasta), se o maltratamos, traiu-nos e começa a dizer o contrário daquilo que pretendemos. Implacável.
Quem pensar a liberdade como o PODER de fazer aquilo que quizer está irremediavelmente condenado à infelicidade e à incapacidade de compreender os acontecimentos sociais, políticos ou pessoais.
E que tem isto a ver com o Médio Oriente?

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Quinta-feira, Junho 08, 2006

corpo

A consideração do corpo como uma coisa cindida está na base da produção de separação pela generalidade das nossas acções.

Na metafísica ocidental esta cisão aparece sob a forma das considerações (idênticas nos pressupostos e nas consequências) segundo as quais o corpo é mero suporte da mente (idealismo) ou a mente mera função do corpo (materialismo vulgar).

A grande revolução epistemológica iniciada com Espinosa consiste precisamente em considerar que um corpo É pensamento e extensão: não há precedência - a ordem e a conexão das ideias é o mesmo ue a ordem e a conexão das coisas; são o mesmo.

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Como vêem, o meu objectivo é cobrir
o mundo de pontos vermelhos: